"A gente nasce, cresce, envelhece e morre. Pra não morrer, 
tem que amarrar o tempo no poste. Eis a ciência da poesia."
     
(Manoel de Barros )
 

 

Parafraseando o poeta Manoel de Barros, eis "a ciência da biografia", amarrar o tempo no poste.  O que não significa parar o tempo cronológico, mas interromper o fluxo ansioso da ampulheta da vida, relapsa em relação às horas que se esvaem como grãos de areia.

 

Escrever "poesia", nesse sentido, é  dar asas à imaginação a partir da memória, o templo sagrado da infinitude, onde a experiência passada é resgatada e reavivada. 

 

É do presente que parte “o chamado ao qual a lembrança responde” (Henri Bergson), mas o tempo da lembrança não é o passado e, sim, “o futuro do passado” (M. Merleau-Ponty).  Um tempo possível, não o inatingível futuro pelo qual sacrificamos todas as forças na juventude e do qual perdemos o rastro na velhice.

 

O futuro, na verdade, “não nos traz nada; nós é que, para construí-lo, devemos dar-lhe tudo, dar-lhe nossa própria vida. Mas para dar é preciso ter, e não temos outra vida, outra seiva a não ser os tesouros herdados do passado e digeridos, assimilados, recriados por nós. De todas as necessidades da alma humana não há outra mais vital que o passado” (Simone Weil).

 

O relato autobiografico, especialmente quanto acompanhado do registro documental, é "uma atividade psíquica dotada de força e significado" (Ecléa Bosi). Contar é recriar a vida e restabelecer um diálogo com os contemporâneos, aquietando a solidão e o medo do esquecimento que a perspectiva da morte traz. 

 

No filme "Tomates Verdes Fritos", depois de narrar sua história para uma desconhecida, a personagem Ninny, de 83 anos, confessa: "Sinto-me melhor agora porque sei que essas pessoas estarão vivas enquanto você se lembrar delas." 

 

Fotos: Acervo pessoal de Paulo Ochandio

 

 

 

 

Paulo Ochandio
Paulo Ochandio