Crônica da Saudade Irremediável

 

   "O sol é uma grande paixão, que vai acabar, ainda que dure milênios, porque tudo o que queima, apaga."

Carlos Heitor Cony

 

 

 

"O Nélson Rodrigues dizia que o amor que acaba não é amor, eu digo que paixão é o contrário, a paixão que não acaba não é paixão. O amor, por ser um sentimento mais controlável, mais equilibrado, tende a ser permanente, mas, se acabar, então é porque não foi amor, talvez tenha sido paixão, talvez tenha sido um equívoco, enfim, existem várias possibilidades. Não sendo uma coisa pode ser mil.

 

Mas a paixão é o seguinte, se não acaba não foi paixão, por esse motivo, a reincidência. A gente conhece um monte de pessoas apaixonadas que sofrem, ameaçam arrebentar os pulsos, ameaçam isso, aquilo e, no entanto, passa algum tempo, elas voltam a se apaixonar. Esse é o diferencial entre a paixão e o amor. 

 

A paixão pode ter uma vida longa, de anos, dependendo do que você alimenta, é como uma chama, se você risca um fósforo, o que é que dura um fósforo aceso? Muitas vezes nem chega a queimar todo o palito, fica só na cabecinha onde está o fósforo mesmo. Se você tiver um cuidadozinho, você ainda consegue prolongar aquela chama que vai para o palito, e assim dura um tempinho além, mas é um palito fininho, pequenininho, chega uma hora em que você tem de jogar fora porque não tem mais palito.

 

Então, dentro de um fósforo, existem duas dimensões da chama. Agora, com essa chama você pode pegar e botar fogo no mundo e aí essa chama demora muito tempo queimando. O sol até hoje está queimando, o sol é uma grande paixão, de milênios e milênios, nós vamos morrer, o sol vai continuar queimando. Tudo que queima, um dia vai acabar, tranqüilamente vai acabar.

 

O sol é uma paixão violenta, é um ser, é um deus, uma coisa qualquer que queima, queima, queima, e vive da própria queimação, o dia em que deixar de queimar morre. A vida dele é se deixar queimar.

 

Então você veja que, quando a gente diz assim, a paixão é uma chama, a gente tem a impressão de que seja uma coisa breve. Sim, pode ser brevíssima, pode ser até apenas um simples clarão, aquele fósforo que você acende e apaga num instante, para acender um cigarro, uma boca de fogão, e pode também demorar muito, como o sol.

 

 

 

 

Paixão não é uma coisa boa nem ruim, é uma fatalidade, eu não vou dizer, por exemplo, que se o sol tivesse consciência, ele diria que queimar é bom, mas é o destino dele. Eu não vou dizer que a gente vá de boa vontade encontrar a paixão, eu não sei, eu acho que é o contrário, eu acho que a paixão é que vem nos encontrar, à revelia. De repente você se descobre apaixonado, de repente você se descobre ardendo, você não é consultado.

 

Amar é diferente, você até pode eventualmente amar forçado por circunstâncias, por exemplo, amar porque convive com aquelas pessoas, partilha raízes familiares. Você ama assim os pais, os parentes, os filhos. O amor entre homem e mulher é um pouco escolhido, um pouco buscado, a paixão, não. Você pode amar a vida inteira e nunca se apaixonar.

 

 A paixão é forte demais e quando acaba, acaba de vez. O sol, quando acabar de queimar, vai se tornar o cadáver de uma estrela, rolando no céu, e nós todos, que vivemos em função dele e somos frutos dessa paixão, também estaremos mergulhados num planeta frio, desértico, será o nada, a morte.

O amor nasce de uma necessidade que toda pessoa tem de gostar e ser gostada, tornar-se especial, destacar-se na paisagem. O amor é uma cumplicidade entre dois seres, contra o mundo, que é muito hostil, você precisa de um companheiro, companheira, para te ajudar a enfrentar.

 

 O amor é uma manifestação indispensável numa vida normal, equilibrada. Evidentemente que ninguém parte para esse sentimento com o pressuposto de sofrer, cortar os pulsos, mas pensa numa retribuição, em ser correspondido. O amor é isso.

 

A paixão, não. A paixão irrompe como um câncer, explode e tem um curso descontrolado, por isso acaba. Você não pode dizer "eu quero me apaixonar". A paixão surge contra a sua vontade, você luta contra ela, mas é inútil. Ela acaba, claro, através de um trauma muito grande.

 

É a morte no sentido metafórico. Você pode amar uma pessoa, deixar de amar e voltar a amá-la no futuro, mas paixão é uma vez só. É um fósforo, que não dá para acender duas vezes.

 

 

"ASSIM COMO SÃO ENIGMÁTICOS OS MOMENTOS EM QUE A PAIXÃO COMEÇA, TALVEZ AINDA MAIS ENIGMÁTICOS SEJAM OS MOMENTOS EM QUE ELA ACABA."