Capítulo 1

  CRIANÇAS DAS PEDRAS

Demetre caminhava devagar no estacionamento vazio e ainda mal iluminado, obra recém-concluída à espera da inauguração. Moveu a cabeça em todas as direções com o olhar sempre exigente, observando detalhes e buscando imperfeições: não encontrou defeitos.

 

Uma lágrima escorreu no canto de um olho, o coração apertou-se no peito, embriaga-se com o sabor da alegria rara. Pergunta-se: “Será que estou sonhando? Fui eu mesmo que construí tudo isto?”

 

Foi aí que a memória do grego deu um salto de décadas, atravessou oceanos e tempos na direção de um bebê muito pequeno, mas com pulmão de aço, que berrava nos braços da mãe carinhosa. Theonimfi não se cansava de observar o rostinho do seu primeiro filho, brincava com as mãozinhas dele, esboçava um sorriso enquanto aguardava Georgios, o pai, voltar com a cabra.

 

O ano era 1926, faltavam cinco dias para outubro acabar, fazia frio e nada aquecia o pequeno. Os dois cômodos abrigavam também um burro e um boi, que rodeavam a manjedoura vazia. A mulher poupava energia recostada na cama, silenciosa.

 

Tão perto e ao mesmo tempo tão longe dali havia as águas azuis do Egeu, cantadas por Homero, e as paisagens mediterrâneas esculpidas com tamanha formosura e pródigas cores que pareciam obra de deuses da mitologia. Mas eram mundos paralelos. Para Demetre, o bebê faminto, a realidade era de pedras e aridez, distâncias de poucos quilômetros que tomavam o tempo de uma eternidade para serem percorridas a pé.

 

Georgios chegou com a cabra que seria a ama de leite do seu primeiro filho nos dois anos seguintes. A criança aprendeu com poucos dias de vida que teria que se adaptar ao que lhe fosse oferecido para se fortalecer e não morrer, por isso abriu a boca obediente e conseguiu nutrir-se com ajuda do animal.

 

Progrediu rapidamente no aprendizado, em meses, quando avistava a cabra, o menino já abria as mãozinhas, feliz em vê-la.

 

O pai cuidadoso decidiu registrar o nascimento do primogênito somente no ano seguinte porque o achou muito miúdo, seria melhor que servisse o exército já com 19 anos completos.

 

O jovem casal pouco conversava, no entanto se entendia profundamente, cada um sabia o que fazer e Demetre chegou para ser o grande companheiro dos pais nas adversidades e na responsabilidade de cuidar do que se tornaria uma grande família.

 

A aldeia onde viviam, Galiá, não tinha mais que mil habitantes, e estava a cerca de 15 quilômetros de Mires, centro urbano mais populoso, onde havia oportunidade de trabalho e acesso a serviços de saúde. Foi nesse universo pequeno como grão de areia para quem vive no mundo sem fronteiras da modernidade que o pequeno Demetre cresceu.

 

Onze meses depois de sua chegada, Theonimfi deu à luz novamente outro menino, Manouí̱l, ou Manoelis, derivativo de Emanuel, do hebraico, que significa “o enviado”. Sim, no coração de Demetre, o irmão assemelhava-se a um enviado de Deus, um presente, amou-o ao primeiro olhar.

 

Era inverno novamente e os picos tingiram-se de branco como branca era a paz que habitava o coração da jovem mãe ao embalar o segundo varão da família. Desta vez, tinha leite para amamentar, puxou o bebê ao peito e acariciou os cabelos suaves do primogênito, adormecido ao lado.

 

Aquecidos pelo calor da lenha no fogão, a jovem mãe e filhos protagonizavam uma cena em sépia, como retrato que envelhece no tempo. Não havia luz, exceto a de candeeiros, não havia água, a não ser nas moringas, enchidas diariamente no pequeno rio distante quase cinco quilômetros da casa. Às vezes no igualmente distante chafariz do centro. Justamente a escassez prodigalizou os afetos, tantos que a memória do grego tem dificuldade em escolher onde aportar quando perscruta o passado.

 

Acaba por eleger entre as primeiras lembranças da infância não o afago da mãe, mas a mão de Manoel entre as suas. O mais velho puxava o irmão e saía com ele porta afora; podia chover, fazer frio, Demetre não desistia da missão. Queria distrair Manoel, brincar um pouco e também ajudar Theonimfi, que já tinha outras crianças e precisava de tempo para cuidar da casa e de todos.

 

Os dois moleques pisavam descalços nas poças de água, corriam e escorregavam nas pedras usando apenas shorts e camisetas. Mal agasalhados, porém afortunados com a benção de Deus, não ficavam doentes. É o que a mãe dizia aos vizinhos, Demetre ouvia e acreditava.

 

Quando voltava para casa, o primogênito tinha novas tarefas, como alimentar a irmãzinha de dois anos antes de poder, enfim, saciar a própria fome. Ela chorava muito enquanto Demetre mastigava um pedaço de pão de cevada com azeitona e lhe passava diretamente. A irmã ficava quieta tempo o suficiente apenas para esvaziar a boca e voltar a chorar. O estômago doeria até que se saciasse, Demetre sabia por isso se apressava. Manoelito ajudava e cada irmão mais velho faria o mesmo pelos menores nos anos seguintes.

 

Estava escrito no destino de Theonimfi  que ela teria 16 filhos, mas criaria apenas oito. Quando uma criança esgotada de forças, perto da morte, chorava, Theonimfi  pedia a Demetre para ir à venda com o ovo de uma das galinhas criadas nos fundos da casa e trocá-lo por um bocado de açúcar.

 

O menino disparava, sempre descalço, pés calejados, por uma distância de cerca de quase um quilômetro. O dono da venda, um aparentado da família, se solidarizava e acabava dando mais açúcar. Colocava tudo em um pedaço de papel que dobrava cuidadosamente como um cone. Na volta, mais cuidadoso, Demetre media os passos para não derrubar nem um tantinho da encomenda.

 

Em casa, passava o açúcar para a mãe, que o usava para adoçar um chá de ervas caseiras. O líquido quente acalmava o bebê na sua agonia de morte. Demetre então se retirava para o canto, sabia como terminaria a cena. Engolia choro, reclamação, punha para fora uma vontade férrea que lhe serviu de bússola no rumo da superação. Um homem ia se construindo na alma do menino.